Porto Digital mostra como inovação pode regenerar cidades

O Conselho de Inovação (Conin), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), e o Pateo76, hub de inovação da entidade, realizaram, nesta quinta-feira (12), o evento “Inovação que gera desenvolvimento real”. Na reunião, foi ministrada a palestra “Porto Digital, 25 anos: lições aprendidas com ambientes de inovação que regeneram centros urbanos”, apresentada por Francisco Saboya, diretor executivo do Grupo Atitude (Pernambuco) e ex-presidente do Porto Digital, e Claudio Marinho, diretor e consultor na Porto Marinho, que discutiram, a partir da experiência do distrito de inovação recifense, o papel desses ecossistemas de inovação no desenvolvimento econômico local e na regeneração urbana.

Francisco Saboya iniciou a sua exposição abordando o contexto e o nascimento do Porto Digital. Ele lembrou do declínio econômico enfrentado tanto por Recife como pelo estado de Pernambuco, que ocasionou uma significativa fuga de talentos para outras regiões, São Paulo, Rio de Janeiro e, em proporção menor, para o exterior, apesar de uma sólida base educacional e de pesquisa.

“Era um paradoxo para a gente porque nós tínhamos uma base, tanto educacional e de pesquisa, assentada na Universidade Federal, do Centro Informático, como nós tínhamos, também, por conta da história do Recife, que é o centro das grandes instituições nacionais da época, a IBM [por exemplo]”, disse.

O palestrante destacou a criação do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), que foi determinante para alterar o cenário de perdas de talentos para outras localidades, sendo, atualmente, uma Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT) com 1.400 pessoas trabalhando com desenvolvimento de pesquisa aplicada, consultoria tecnológica e educação, atuando nacional e internacionalmente.

O sucesso do CESAR impulsionou a criação do Porto Digital, em 2000, com o propósito de uma política econômica para reter talentos, criar uma nova base produtiva focada na tecnologia e, simultaneamente, promover a requalificação urbana e a regeneração do centro histórico do Recife.

Ao abordar economia e mundo digital, Saboya pontuou que o mundo atual é um híbrido onde o físico e o digital “estão umbilicalmente integrados”. “Não dá para a gente continuar mais com essa segmentação”, apontou. Observou que, nos últimos 30 anos, ocorreu uma transformação: a sociedade passou de uma lógica industrial para uma lógica de serviços intensivos em inovações digitais.

Relatou que a economia atualmente tem uma centralidade maior no cliente, sendo cada vez mais informado e faz escolhas baseadas em valores como velocidade, preço, qualidade, comodidade e segurança, características oferecidas por plataformas digitais. “Os conceitos anacrônicos do marketing tradicional, por exemplo, de fidelização de clientes, você não tem mais esse poder de fidelizá-los”.

Saboya indicou que a desindustrialização brasileira é refletida na queda da participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB), evidenciando a necessidade de uma reindustrialização baseada em inovação e sustentabilidade.

Sobre os desafios da transformação digital, ele sinalizou que empresas, governos e instituições ainda operam com estratégias analógicas, no máximo digitalizando processos antigos, cenário que pode acelerar a perda de competitividade. Entre os riscos da transformação digital, citou confundir o processo como uma mera digitalização; ignorar os clientes atuais e futuros; centralizar decisões em hierarquias superiores com repertório limitado; e falta de compreensão dos valores geracionais, levando a investimentos ineficazes.

Ao falar de cidades competitivas e o papel do Porto Digital, comentou que a competição urbana é baseada por recursos, investimentos e talentos, sendo a inovação e a capacidade de atrair e reter pessoas os pontos centrais de competitividade atualmente. As cidades competitivas devem ser atraentes para pessoas, eficientes para negócios e socialmente justas. Contou que o Porto Digital se orgulha de nunca ter demolido imóveis, expulsado moradores ou removido favelados de sua área. Pelo contrário, tem influenciado investimentos para melhorar a qualidade de vida dessas populações.

“Nós nunca solicitamos da prefeitura e nunca dizemos ao governo ‘que tem que limpar, né?’ Não, vamos trabalhar para que a gente possa melhorar a qualidade de vida dessas pessoas”, narrou. “E hoje, em parte pela influência do Porto Digital, nós temos um conjunto de investimentos lá feitos, em que você acabou com a favela, lá você tem a Minha Casa, Minha Vida, praça, posto de saúde, escolas etc.”

Em seguida, Claudio Marinho apresentou o Porto Digital do Recife como um modelo bem-sucedido de regeneração urbana por meio da criação de um polo tecnológico. Disse que o distrito de inovação recifense é um cluster global de serviços intensivos em tecnologias digitais, situado em um centro histórico tombado. Compartilhou que a experiência do Porto Digital demonstrou a eficácia de focar em uma área delimitada e manejável para promover a transformação, em vez de abordagens abstratas ou em toda a cidade.

O Porto Digital gerou também uma valorização imobiliária, com 220 mil m² de imóveis sendo retrofitados, superando o tamanho do proposto pelo projeto do Centro Administrativo do Governo do Estado de São Paulo. Além disso, um antigo moinho portuário de 30 mil m² foi convertido em habitação e espaços de trabalho, e um silo industrial se tornou um prédio residencial.

Com a instalação do ecossistema de inovação, elevou-se a concentração de empregos de alta escolaridade no Porto Digital, gerando demanda por habitação de classe média na área. Hoje, área onde está localizado o distrito de inovação conta com 113 bares, cafés, restaurantes e espaços culturais.

Para o Porto Digital ter sucesso, o palestrante mencionou três fatores: pessoas qualificadas, com Recife liderando o número de alunos matriculados em cursos presenciais de informática no Brasil; Governança Público-Privada, conselho do Porto Digital possui 19 membros, onde os representantes governamentais são minoritários, assegurando que o orçamento público não seja motivo para ingerência, consequentemente, confiança na gestão, fundamental para a longevidade do projeto; e narrativas autênticas, criação de histórias sedutoras sobre o futuro do lugar e o resgate da história da cidade.

Falando sobre como o case do Porto Digital poderia ser aplicado em São Paulo, o convidado propõe a convivência de três regiões no centro de São Paulo para a regeneração: Campos Elíseos, onde será o futuro Novo Centro Administrativo do Governo; região do Copan; e o centro histórico, onde estão localizados a ACSP e Pateo76. Ele sugeriu a criação de um polo de tecnologia no centro, mapeando prédios governamentais que serão desocupados para atrair empresas de tecnologia, aproveitando a alta concentração de empregos de alta escolaridade já existente no local.

Veja as fotos: https://flic.kr/s/aHBqjCMS4v

Por ACSP - 12/03/2026