
Na quinta-feira (5), o seminário “Eficiência Energética Operacional do Transporte Marítimo”, promovido pelo Comitê de Usuários dos Portos e Aeroportos do Estado de São Paulo (COMUS), debateu as mudanças que estão ocorrendo no Porto de Santos, o maior e mais importante complexo portuário da América Latina, que, a partir deste ano, adotará a nova configuração, “HUB and Spoke”, modelo com múltiplas atracações, que otimiza o transporte marítimo concentrando cargas de navios de grande porte em portos centrais (hubs), que depois são distribuídas por embarcações menores (feeders) para portos secundários (spokes). Está prevista também a obra de aprofundamento do canal do Porto para 16 metros de profundidade, além de grandes investimentos na infraestrutura do complexo. O seminário teve a mediação de José Candido Senna, coordenador do COMUS.
Os sete painéis reuniram representantes da Autoridade Portuária de Santos, responsável pelas obras do Porto, além de especialistas e empresários dos vários setores do comércio exterior e do transporte marítimo. Foram apresentados os projetos em andamento e as previsões para conclusão dos trabalhos pelos técnicos, enquanto os especialistas e representantes das empresas de cabotagem debateram as soluções e sugestões apresentadas, com destaque para algumas questões fundamentais como a necessidade urgente da adequação do porto de Santos para o crescimento das exportações brasileiras, inclusive com o aumento da participação das pequenas e médias empresas no setor exportador.
Painel 1
No primeiro painel, o engenheiro Matheus Novaes e o oceanógrafo Maurício Gaspar, representantes da Autoridade Portuária de Santos (APS), fizeram uma apresentação completa sobre o que está sendo feito na infraestrutura do complexo e os prazos em que as obras serão entregues. “O porto de Santos tem 16 km de cais acostado sob administração da APS, recebendo navios da categoria Panamax de 363 metros de comprimento e realizando um número de manobras que pode chegar a 70 por dia”, afirmou.
Ele acrescentou que a importante obra para a segurança dos embarques e desembarques vai possibilitar, além de mais segurança, maior atratividade e ganho de eficiência, com a possibilidade de o Porto receber navios maiores, além de mais 1000 contêineres, só com aprofundamento de 15 para 16 metros do calado.
Mauricio Gaspar destacou a importância do projeto da obra, do processo de licitação e dos trabalhos técnicos que estão sendo realizados no fundo do canal. “É uma das maiores obras de infraestrutura dos últimos anos e agora estamos dando o andamento por meio do processo de levantamento de dados e aprovação do projeto total, com adequação às determinações do licenciamento ambiental”. Segundo ele, a previsão para a entrega da obra é de dois anos, considerando os trâmites e a liberação pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que está em andamento.
Painel 2
O mediador do seminário, José Candido Senna, abriu o painel destacando os desafios do Porto de Santos, da logística e do transporte marítimo nos terminais do País. “Precisamos levar em consideração a necessidade urgente de nos adequarmos às demandas mundiais e enfrentar de maneira racional os desafios da geopolítica mundial e das mudanças climáticas em andamento, especialmente no que se refere aos gases de efeito estufa”.
Para Senna, também é necessário levar em consideração o crescimento das exportações brasileiras, que, em 2025, teve um aumento de 23%, elevando o tráfego e o fluxo do embarque no Porto de Santos.
O representante da Associação Brasileira de Contêineres, Luiz Fernando Resano, fez uma exposição sobre custos operacionais e a urgência na realização das reformas estruturais do Porto de Santos. “Temos que consolidar o complexo do Porto de Santos como principal Hub Port do Brasil”. O Hub Port é um porto com localização estratégica que tem como principal característica o recebimento e movimentação de contêineres de navios de maior capacidade.
No mesmo painel, Ricardo Naeshuiro falou sobre a otimização dos recursos da nova infraestrutura e dos ativos compartilhados, que são as grandes máquinas para embarque e desembarque de cargas utilizadas no cais. “Temos que aprimorar e melhorar nossos ativos e utilizá-los da melhor forma possível, adequando-os à nova configuração do Porto de Santos”, afirmou.
Já o palestrante Bruno Strupello, da Associação Brasileira de Terminais de Contêineres (ABRATEC), acredita que a reforma do canal do Porto é urgente. “Todos devem trabalhar pela utilização e a otimização de todos os elos da cadeia e do fluxo de embarque e desembarque porque eles são importantes.
Paulo Villa, da empresa de logística USUPORT, fez uma exposição sobre as grandes dificuldades logísticas que impedem o Brasil de atualizar seus portos. “Ainda temos uma infraestrutura portuária muito deficiente. Precisamos conciliar a visão do exportador e do importador e criar um projeto comum para todos e que envolva eficiência e competitividade no transporte dos terminais. De qualquer forma, apesar do desafio, temos grandes oportunidades pela frente. O comércio não pode esperar e o Porto de Santos sempre será o mais importante do Brasil.”
Já Danilo Ramos, representante da empresa Santos Brasil, fez uma analogia do tráfego no Porto de Santos com o do Aeroporto de Guarulhos: “Passageiros de São Paulo que chegam de um voo do exterior no aeroporto de Guarulhos são cerca de 40%, com 60% de outros estados. Se pensarmos que parte da carga que desembarca no Porto de Santos terá como destino o estado de São Paulo, podemos organizar a distribuição, por exemplo, dos 60% dessa carga, antecipadamente, para outros portos brasileiros. É um processo em andamento e que, com a nova configuração do Porto, será ainda mais viável”, afirmou.
Painel 3
Neste painel foram debatidas as mudanças do longo curso com a adoção do sistema Hub and Spoke e a possibilidade de Santos receber navios de maior porte como o New Panamax, de 366 metros, e maiores consignações médias. Para Angelino Caputo, da Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegários (ABRATEC), “estamos no meio de uma transição importante da maneira antiga do processo de importação para um novo momento. Precisamos também reduzir a burocracia e agilizar o movimento de carga”.
Além de Caputo, neste painel também participou o fiscal alfandegário Ivan Basílico, que fez uma exposição sobre como a fiscalização pode ajudar a agilizar os processos no Porto de Santos. “Queremos que o trabalho de fiscalização de carga seja feito da maneira mais eficiente e rápida e que não seja um entrave para as empresas importadoras e exportadoras”, afirmou.
Painel 4
A articulação do sistema de múltiplas atracações e Hub and Spoke com a cabotagem foi o tema desse painel que contou também com uma apresentação da despachante aduaneira Regina Terezin, que debateu com o fiscal alfandegário Ivan Brasílico e com o grupo de palestrantes.
A discussão foi em torno das questões burocráticas ligadas à intermediação das cargas, nos embarques e desembarques do Porto, e as perspectivas de mudanças e melhorias na nova realidade do complexo portuário, o que, segundo a profissional, tem como objetivo a redução da burocracia e do tempo de liberação das cargas. “Está mais do que evidente a necessidade de reduzirmos a burocracia, o tempo de liberação das cargas e a consequente redução de custos para as empresas e a intermediação.”
Painel 5
A gestão de estoques de produtos e o planejamento logístico de importadores e exportadores na nova realidade do Porto de Santos foi o tema central desse painel. Também foi discutido o planejamento da logística e a prevenção de riscos de sobrestadia de contêineres, tudo na perspectiva de que as informações detalhadas sobre a nova configuração do complexo portuário devem ser as mais exatas possíveis.
A coordenadora do Conselho de Empresas Exportadoras (CECIEX), Damaris Alves da Costa, fez uma exposição importante sobre como a questão do armazenamento e da logística tem gerado custos extras, por conta da ineficiência e da burocracia.
“Existe uma grande imprevisibilidade em relação ao tempo de liberação de cargas, de custos de prazos, ou seja, o problema é muito grande para qualquer empresa, mas e as pequenas empresas exportadoras? Muitas delas estão deixando de exportar por conta das dificuldades e da imprevisibilidade de custos, especialmente”, afirmou.
Para Eduardo Heron, do Conselho de Exportadores de Café, o Brasil tem batido recordes de exportação de grãos e precisa de uma infraestrutura portuária adequada para atender à crescente demanda. “Além de criar uma nova infraestrutura para o Hub Port de Santos, vamos precisar de projetos de modernização e adequação dos outros portos brasileiros”.
Painel 6
Neste painel, o grupo de palestrantes colocou em pauta as questões ligadas ao despacho de importação e exportação de cargas de transbordo, emissão de BLs de longo curso nos portos de origem e nos feeder. Contou novamente com o fiscal alfandegário Ivan Brasílico e a participação de Tiego Lima, representante do Ministério dos Portos e Aeroportos, que coordena o programa Porto Sem Papel, sistema que permitirá o monitoramento em tempo real das chegadas e partidas dos navios mercantes nos portos brasileiros.
Painel 7
Contou com uma apresentação detalhada da engenheira e especialista ambiental Glenda Rodrigues, da EBP Brasil, empresa de consultoria ambiental. Ela exibiu dados e projetos sobre a consolidação da transição energética sustentável no Brasil, defendendo a ampliação do uso do etanol, biodiesel e do óleo reutilizável nos navios”.
O seminário terminou com observações e sugestões dos palestrantes sobre a importância da transição energética para o aumento da eficiência operacional com os ativos existentes e contratados na cadeia de suprimentos e nos esquemas operacionais de múltiplas atracações do Hub and Spoke. Já estão previstos outros encontros do COMUS para novos debates sobre as reformas no Porto de Santos.
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Por ACSP - 06/03/2026