II Fórum Mercosul-União Europeia debate oportunidades, desafios regulatórios e plano de ação para ampliar exportações brasileiras

A entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia exigirá mais do que a redução de tarifas comerciais. A avaliação predominante entre autoridades, empresários e especialistas reunidos no II Fórum de Integração Mercosul-União Europeia é que o sucesso brasileiro dependerá da capacidade de preparar empresas para atender exigências regulatórias, ampliar sua competitividade e construir uma estratégia coordenada de internacionalização.

Realizado nos dias 28 e 29 de maio pela São Paulo Chamber of Commerce, com apoio do CECIEx, o encontro reuniu, na Associação Comercial de São Paulo, representantes do governo federal, governos estaduais, agências de promoção de investimentos, entidades setoriais e instituições de apoio às exportações. Ao longo de dois dias de debates, os participantes discutiram oportunidades de negócios, certificações, acesso a mercados e iniciativas para ampliar a presença de produtos brasileiros nos países da União Europeia.

 

Abertura do primeiro dia
Alessandra Andrade, Angela Gandra, Luís Roberto Gonçalves e Paulo Bornhausen
 

Acordo é visto como oportunidade histórica para o Brasil

Na abertura do evento - que contou com o líder do sistema do associativismo e presidente da Associação Comercial de São Paulo, da Federação das Associações Comerciais do Estado (FACESP) e da Confederação (CACB), Alfredo Cotait Neto. O presidente do CECIEx e vice-presidente da ACSP, Luís Roberto Gonçalves, destacou o potencial econômico da parceria entre Mercosul e União Europeia. Para ele, a conclusão das negociações abre um mercado de grandes proporções para as empresas brasileiras e cria condições favoráveis para ampliar a integração econômica entre os dois blocos. “Depois de muito esforço de anos, se conseguiu o acordo Mercosul-União Europeia”, observou. “Nós temos uma oportunidade excepcional, cerca de 720 milhões de consumidores, um PIB combinado estimado em 22 trilhões e uma integração com 31 países”.

Paulo Bornhausen, secretário de Articulação Internacional do Governo de Santa Catarina e conselheiro da ACSP, avaliou que o tratado vai além das questões comerciais e representa uma aproximação estratégica entre regiões que compartilham valores e interesses econômicos. Na visão dele, o desafio agora é mobilizar os setores produtivos para aproveitar as oportunidades criadas pelo novo cenário. “É um acordo mais do que comercial. Ele é um acordo civilizacional”, sublinhou.

Representando o Ministério das Relações Exteriores, Marcelo Salum ressaltou que a implementação do acordo poderá fortalecer a cooperação em áreas como energia, minerais estratégicos, investimentos e financiamento, ampliando as possibilidades de relacionamento entre os dois blocos.

Estudo aponta setores com maior potencial exportador

O primeiro painel foi conduzido por Maurício Manfré, assessor especial de Relações Internacionais da São Paulo Chamber of Commerce, que apresentou um levantamento sobre os setores brasileiros com maior potencial de crescimento no mercado europeu.

Entre os segmentos identificados estão máquinas e equipamentos, produtos químicos, couro e calçados, rochas ornamentais, metais, borracha, madeira e produtos florestais, além de alimentos e matérias-primas. O estudo também destacou oportunidades relevantes em mercados como Alemanha, França, Itália, Espanha e Países Baixos.

A apresentação serviu como base para orientar futuras ações de promoção comercial e auxiliar entidades e empresas na definição de estratégias voltadas ao mercado europeu.

 

Maurício Manfrè
Maurício Manfrè
 

Certificação e adequação regulatória entram no centro do debate

O segundo painel reuniu especialistas da IFS Certification e da Intertek para detalhar as exigências regulatórias que deverão ser observadas pelas empresas interessadas em exportar para a União Europeia.

Foram discutidos temas como marcação CE, regulamento REACH, rastreabilidade, certificações fitossanitárias e o Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR), apontado como um dos principais desafios para diversos setores produtivos.

Os especialistas alertaram que o acesso ao mercado europeu dependerá menos da redução tarifária e mais da capacidade das empresas de atender aos padrões técnicos exigidos pelo bloco. Nesse contexto, Sérgio Custódio, da Intertek, chamou atenção para a necessidade de preparação prévia e planejamento: “a janela está aberta. A pergunta é: vocês estão habilitados para exportar? Os produtos estão prontos para isso?”

A avaliação dos participantes foi de que certificação, rastreabilidade e conformidade regulatória precisarão fazer parte da estratégia das empresas que pretendem conquistar espaço no mercado europeu.

Sebrae e InvestSP apresentam programas para formação de novos exportadores

O terceiro painel foi dedicado às iniciativas de apoio às empresas interessadas em internacionalização. Márcio Guerra, do Sebrae-SP, defendeu que o foco das entidades deve estar na identificação de empresas com capacidade real de atender aos padrões exigidos pela União Europeia.

Para Guerra, o trabalho de preparação deve começar pela seleção de negócios que já demonstrem potencial competitivo e estejam mais próximos de cumprir os requisitos técnicos e regulatórios exigidos pelo mercado europeu. “Temos que identificar as empresas já com potencial de atender esses altos requisitos”, assinalou.

O representante do Sebrae observou que a exportação para a Europa representa um desafio superior ao enfrentado em mercados vizinhos, mas avaliou que existem oportunidades concretas para empresas brasileiras preparadas. “Sensibilizar para exportar para o mercado europeu tão exigente é um desafio maior ainda, mas entendemos que é possível”, declarou.

Durante a apresentação, Guerra destacou oportunidades para micro e pequenas empresas nos setores de café torrado, mel, cachaça, queijos especiais, couro, moda, madeira e máquinas agroindustriais. Também detalhou os quatro pilares da estratégia da instituição: inteligência comercial, adequação regulatória, promoção comercial e acesso a financiamento.

Na sequência, Pedro Pignatari, da InvestSP, apresentou ações voltadas à internacionalização de empresas paulistas e destacou a atuação dos escritórios internacionais mantidos pelo governo estadual.

Segundo Pignatari, a unidade instalada em Munique tem acompanhado de perto as discussões relacionadas ao acordo e atua no mapeamento de oportunidades para empresas brasileiras interessadas no mercado europeu: “o escritório de Munique, que olha para toda a Europa, tem acompanhado de muito perto todas as discussões em relação ao acordo.”

O executivo também lembrou que a InvestSP participou de 26 missões internacionais desde 2022, sendo 12 delas voltadas ao mercado europeu, além de desenvolver programas de capacitação exportadora e apoio à participação de empresas em feiras e rodadas de negócios.

 

Pedro Pignatari
Pedro Pignatari

Plano de ação propõe busca ativa por empresas com potencial exportador

O quarto painel concentrou os debates sobre a construção de uma agenda prática para ampliar a presença brasileira na União Europeia. O foco das discussões esteve na identificação de empresas com perfil exportador, no fortalecimento dos programas de qualificação e na coordenação entre entidades públicas e privadas.

Durante o debate, Bornhausen defendeu que o desafio não está apenas em divulgar oportunidades, mas em encontrar empresários dispostos a investir tempo e recursos na internacionalização de seus negócios. Para ele, será necessário um trabalho contínuo de preparação e acompanhamento. “Não tem segredo. É uma jornada de uma década que nós estamos iniciando”, afirmou.

O secretário também argumentou que as entidades precisam assumir uma postura mais ativa na identificação de empresas aptas a competir no exterior, criando uma nova geração de exportadores preparados para atender às exigências europeias. “Temos que buscar líderes, talentos com empresas viáveis para podermos transformar em campeões do acordo Mercosul-União Europeia”, explicou.

Na avaliação de Bornhausen, o sucesso da iniciativa dependerá menos da quantidade de empresas alcançadas e mais da capacidade de identificar empreendedores com disposição para assumir o desafio da internacionalização. “Somos caçadores de líderes e não de empresas”, defendeu.

Ao final do encontro, os participantes defenderam a criação de uma agenda permanente de trabalho envolvendo governos, associações empresariais, agências de promoção comercial e setor produtivo. Entre as prioridades apontadas estão certificação, inteligência de mercado, capacitação empresarial, promoção comercial, participação em feiras internacionais e formação de novos exportadores.

O consenso entre os presentes foi de que o acordo Mercosul-União Europeia abre uma oportunidade histórica para o Brasil ampliar sua participação no comércio internacional, mas que os resultados dependerão da capacidade de transformar planejamento e articulação institucional em negócios concretos.

Por ACSP - 29/05/2026