
Na segunda-feira (23), o Conselho do Agronegócio da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) realizou, na sede da entidade, a palestra “Estratégias do Agronegócio Brasileiro no Contexto Geopolítico Global Contemporâneo”, apresentada por Alberto Pfeifer, engenheiro agrônomo e diretor na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República na gestão Michel Temer. No encontro, o palestrante abordou que o agro brasileiro não pode ser visto somente como gerador de produção e produtividade, mas também como um setor de proteção e segurança multidimensional para o mundo. Contudo, o Brasil falha em reconhecer e capitalizar essa capacidade, permanecendo vulnerável em aspectos cruciais e agindo como um rule taker em vez de um rule maker nas relações internacionais.
Ao avaliar o agro brasileiro como ativo geopolítico, Pfeifer começou destacando a potência do Brasil em produção e exportação agrícola, atingindo US$ 170 bilhões em exportações, incluindo US$ 100 bilhões para a China. No campo da inovação, o palestrante destacou a capacidade de gestão racional e sustentável dos recursos naturais em ambiente tropical, consolidada nos últimos 50 anos, com o País tornando-se a maior potência agropecuária tropical do mundo.
Outro tópico abordado foi a capacidade do agro brasileiro em ser um fornecedor de segurança multidimensional, não se concentrando apenas na questão da segurança alimentar, mas oferecendo também segurança hídrica, energética, biodiversidade e territorial ao mundo, poupando recursos de países parceiros.
“O Brasil fornece segurança alimentar para a China, Índia, para o mundo inteiro, para o Oriente Médio, não é só alimentar, é multidimensional”, disse. “Ao oferecer o alimento, o têxtil, a energia renovável, as matérias-primas derivadas do campo, ele poupa recursos aos nossos parceiros”.
Lembrou também que o agronegócio é um grande organizador da estrutura empresarial brasileira, beneficiando as indústrias química, petroquímica, máquinas, plásticos, entre outros. Relatou que a agropecuária é comparada a uma "quarta força armada" devido à sua contribuição para a ocupação e vigilância do território, soberania, tecnologia e o vasto acervo de produtores e maquinário que compõem um sistema amplo de defesa nacional.
No atual contexto global geopolítico, Pfeifer pontuou algumas vulnerabilidades do setor. Entre os citados, está a dependência de fertilizantes, com o Brasil importando 85% dos seus fertilizantes, e 97% do potássio, de países como a Rússia. Nesse cenário, o agronegócio está vulnerável a choques externos, tais como guerras, crises e instabilidade de preços.
Outro gargalo que merece atenção é a infraestrutura de transporte. O palestrante sinaliza as deficiências de portos e ferrovias, escancaradas na pandemia, agravando a dependência de insumos e a escoação da produção. Outra vulnerabilidade está na produção de fertilizantes nitrogenados ligados ao gás natural e petróleo, que podem sofrer com escassez ou elevação de preço em cenários de crise.
Apesar de ser uma potência tropical, o que daria uma vantagem ao Brasil em um mundo cada vez mais “tropicalizado” por causa dos efeitos climáticos, o País aceita passivamente as regulações e normativas externas, exercendo o papel de rule taker, em vez de liderar a formulação de regras e padrões internacionais para o comércio agrícola e a sustentabilidade, adotando uma postura de rule maker.
Uma enorme vulnerabilidade doméstica apontada pelo palestrante é a infiltração do crime organizado transnacional (PCC e CV) no agronegócio brasileiro, resultando em bilhões de reais em prejuízos anuais com agrotóxicos falsificados, sementes piratas, lavagem de dinheiro e roubo de maquinário, afetando a segurança empresarial, produtiva e a reputação do setor.
Em números, são R$ 20 bilhões em prejuízo anual estimado com mercado ilegal e contrabando de agroquímicos; R$ 52 bilhões em volume movimentado em esquemas de lavagem de dinheiro e sonegação no setor; R$ 10 bilhões de perda anual com uso de sementes piratas ou contrabandeadas; e R$ 1,2 bilhão por ano com roubo de cargas.
Além disso, chamou atenção para a modernização da agricultura, que exige mão de obra qualificada, mas cada vez mais escassa. No contexto de policrise e desglobalização, ele chamou atenção para quatro pontos: demografia, mudanças nos eixos de consumo e pressão populacional; digitalização, ataques cibernéticos, IA e vulnerabilidade de infraestruturas críticas; desastrologia, eventos climáticos extremos e choques pandêmicos; e desdemocratização, polarização, guerras na Eurásia e falência da governança multilateral.
Pfeifer salientou que a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é um projeto geopolítico com o objetivo de ocupar o território e suprir as necessidades básicas do Brasil, impulsionando a segurança alimentar interna. Sobre o saber agrícola brasileiro, o palestrante argumentou que esse tema deve ser tratado como inteligência estratégica e não como mera cooperação internacional.
“O chinês vem aqui, contrata o nosso pesquisador, leva para a China, paga bem, o cara fica pesquisando e captura toda a informação”, apontou. “Peixe amazônico, o maior produtor do mundo é a China porque ela levou o tambaqui, o pirarucu, levou para lá, aprendeu a cultivar e hoje é o exportador desses peixes”.
O palestrante defende que o Brasil deve proteger e vender caro o seu conhecimento, utilizando-o como um diferencial competitivo e de poder geopolítico, sendo a transferência de tecnologia estratégica, priorizando países amigos e buscando contrapartidas de outros.
“A Embrapa não pode abrir [seu conhecimento]. Isso é que nem o mapa era para Portugal, quando liderou as navegações do vento, porque o mapa era a chave do tesouro. O saber da Embrapa é a nossa chave do tesouro”.
Para o futuro, o convidado defende que o Brasil adote uma estratégia nacional que identifique, monitore e antecipe suas vulnerabilidades com políticas públicas eficazes, e assuma um papel mais ativo (rule maker) nas discussões e normativas internacionais de comércio agrícola e ambiental, entre outros pontos.
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Por ACSP - 23/03/2026