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Qual Será o “Motor” do Crescimento Econômico em 2019?

 

Após serem divulgados os decepcionantes resultados da atividade econômica no ano passado, os analistas de mercado reduziram suas projeções para o presente ano, o que em parte se explica pelo fato de que o pífio resultado da atividade no último trimestre do 2018 tende a “contaminar” sua evolução durante os próximos meses. Fora esse efeito estatístico, porém real, quais poderiam ser os motores de propulsão da economia nesse ano que recém se inicia.

Do ponto de vista do gasto, o consumo das famílias, que continua a ser o elemento mais determinante, não apresenta perspectivas de intensa expansão, pois, o contingente de pessoas desempregadas e subempregadas continua muito elevado e, consequentemente, os salários crescem pouco acima da inflação. Com o orçamento apertado, as famílias terão dificuldade em aumentar suas despesas de forma expressiva, que, em todo caso, serão beneficiadas pelo aumento da confiança do consumidor e pela maior concessão de crédito.

Por sua vez, a crise fiscal aguda vivida pelos Governos das três esferas administrativas impedirá qualquer expansão mais acentuada do consumo e do investimento públicos, enquanto o setor externo também deverá contribuir menos para a elevação da atividade, devido à desaceleração da economia mundial, e, em particular, em decorrência do menor crescimento da China e da crise econômica vivida pela Argentina.

Assim, o “motor” da expansão, pelo lado do gasto, recairá sobre os investimentos produtivos. Apesar da grande capacidade ociosa interna, ainda há enorme quantidade de
recursos financeiros internacionais que podem ser canalizados para financiar novas iniciativas, principalmente aquelas direcionadas a reparar e ampliar nossa sofrível infraestrutura.

No tocante à produção, os serviços, que seguem sendo o principal setor, ainda se ressentirão do alto desemprego e das baixas remunerações, prejudicando principalmente
aqueles prestados às famílias, porém, poderão ser fortemente beneficiados pelos maiores
investimentos produtivos, que demandarão mais serviços prestados às empresas, principalmente no caso dos transportes. A produção industrial também poderá ser afetada positivamente pela maior demanda de máquinas e equipamentos dos investidores, o que fortalecerá sua recuperação.

A evolução dos investimentos dependerá crucialmente da realização de reformas, começando com a da Previdência, e se estendendo ao campo tributário e externo, entre
outros, gerando um ambiente de maior certeza, auxiliando a manter a confiança dos empresários em patamares elevados. Nesse sentido, uma frustração com o ímpeto reformador do Governo, e com a política econômica em geral, poderá provocar intensa reversão das expectativas, gerando, por terceiro ano consecutivo, baixo crescimento da atividade econômica.

 

 

Análise da Conjuntura

 

1. Moeda, Crédito e Inflação

 

  • Inflação, medida pelo IPCA, mostrou elevação abaixo do esperado em janeiro, contribuindo para manter sua variação anual (12 meses) abaixo da meta perseguida pelo Banco Central.

 

  • No mesmo mês, crédito à pessoa física continua crescendo de forma moderada, porém ascendente, corrigindo os valores pela taxa de inflação.

 

  • Taxa de juros média do crédito concedido à pessoa física e inadimplência recuaram em relação a janeiro do ano passado.

 

 

2. Atividade Econômica e Emprego

 

  • Atividade industrial recuou em dezembro, em relação ao mesmo mês do ano anterior, crescendo pouco em 2018, devido tanto à menor demanda interna, afetada negativamente pela greve dos caminhoneiros e pela incerteza eleitoral, como externa, prejudicada pela crise argentina.

 

  • Confiança do consumidor continuou a aumentar de forma significativa em janeiro, em relação ao mesmo mês de 2017, retornando ao campo otimista, por primeira vez em três anos.

 

  • Desemprego continuou recuando lentamente, na comparação com janeiro do ano passado. A massa de rendimentos, que corresponde à renda total  habitualmente recebida no mercado de trabalho, segue crescendo levemente acima da inflação.

 

  • Em dezembro, na comparação interanual, as vendas do varejo cresceram abaixo do esperado, configurando fraca expansão em 2018, explicada pelo alto desemprego, modesto aumento dos salários e juros ainda elevados, além dos efeitos negativos provocados pela paralização do transporte terrestre e pela incerteza eleitoral.

 

  • Setor serviços apesar de mostrar queda em dezembro, fechou o ano passado praticamente mantendo volume estável em relação a 2017, influenciado negativamente pelo alto desemprego, baixo crescimento dos salários e pela greve dos caminhoneiros.

 

  • Como consequência dos comportamentos do varejo, dos serviços e da indústria, Indicador de atividade do Banco Central (IBC-BR) sinalizou fraco desempenho da atividade econômica em 2018.

 

  • Resultado anterior foi confirmado pelo desempenho do PIB, que de acordo com o IBGE, apresentou em 2018 a mesma taxa de crescimento modesta observada no ano anterior, com avanços do comércio e da atividade imobiliária e retração da construção civil.

 

 

3. Finanças Públicas

 

  • Governo Consolidado (União, Estados, Municípios e empresas estatais) registrou superávit fiscal primário (excesso de receitas sobre despesas não financeiras), no primeiro mês do ano, levemente inferior a igual mês de 2018.

 

  • Essa comparação é prejudicada pelas receitas não recorrentes dos programas de regularização de dívidas tributárias, obtidas em janeiro de 2018, provocando queda na arrecadação do Governo Central (Tesouro, Banco Central e INSS) superior à registrada em suas despesas.

 

  • Despesas com juros da dívida pública diminuíram em relação a igual mês do ano passado, devido aos resultados mais favoráveis das operações de swap cambial, por parte do Banco Central.

 

  • Como consequência do superávit primário e das menores despesas financeiras, resultado nominal (total), em janeiro, foi mais positivo do que aquele registrado no mesmo mês de 2018.

 

  • Resultado mensal se deve a fatores sazonais: concentração de receitas e represamento de gastos devido ao início de mandatos, mantendo-se a tendência à geração de déficits primários (excesso de despesas não financeiras sobre receitas) durante o resto do ano, elevando o já excessivo endividamento público.

 

 

4. Setor Externo

 

  • Balança comercial (diferença entre exportações e importações) continuou apresentando saldo positivo, em janeiro, porém bastante inferior ao registrado em idêntico mês de 2018.

 

  • Resultado menor explicado por operações envolvendo exportação e importação “fictas” de plataformas de exploração de petróleo, realizadas no âmbito do Repetro, que distorceram os valores da balança comercial. Excluindo essas operações, saldo comercial seria pouco superior ao obtido em janeiro do ano passado.

 

  • Commodities continuam sendo responsáveis pelo aumento das exportações, principalmente minério de ferro, soja e milho em grão. Entre os manufaturados, se destacaram aviões e seus acessórios e óleos combustíveis.

 

  • China e Estados Unidos continuam sendo os principais destinos das exportações, seguidos pela Argentina, que, atravessando uma crise econômica, tem reduzido substancialmente as importações de produtos brasileiros, especialmente automóveis.

 

  • Em janeiro, déficit em “transações correntes” (excesso de importações sobre exportações de bens e serviços) foi ligeiramente superior ao do mesmo mês de 2018, devido, principalmente, ao recuo do saldo comercial. Esse déficit continua sendo coberto com folga pelo forte ingresso líquido de investimentos diretos no país.

 

  • Cotação do dólar, em janeiro, sofreu redução, motivada pelo otimismo com o novo Governo, que provocou forte ingresso de capitais estrangeiros.

 

 

5. Síntese da Conjuntura Econômica

 

  • Retomada da atividade econômica segue lenta no início do ano, com desempenho durante os próximos meses dependente da evolução da confiança dos mercados.

 

  • Inflação (IPCA) de janeiro continua abaixo (em termos anuais) da meta perseguida pelo Banco Central, com perspectiva de manter-se em patamares similares ao longo do ano.

 

  • Apesar do resultado fiscal positivo em janeiro, Governo segue tendência de gastar mais do que arrecada, elevando seu grau de endividamento a níveis incompatíveis com a solvência fiscal, exigindo corte efetivo de despesas obrigatórias, principalmente as previdenciárias.

 

  • Contas externas continuam equilibradas, com necessidade de financiamento externo (excesso de importações sobre exportações de bens e serviços) mais do que satisfeita pela entrada de capitais financeiros de longo prazo, situação que tende a se repetir durante todo o ano.

Por IEGV - Instituto de Economia Gastão Vidigal